Com tarifaço dos EUA em vigor, como fundos podem ser afetados?
Especialistas consultados pelo Clube FII detalham perspectivas para FIIs, FI-Infras e Fiagros

Com a entrada em vigor nesta quarta-feira (6) da tarifa de importação de 50% aplicada pelos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros, investidores monitoram possíveis impactos em diversas classes de ativos, incluindo em Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), Fundos de Infraestrutura (FI-Infras) e Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros).
O principal impacto do tarifaço neste momento é sobre a inflação, na visão de Lana Santos, analista do Clube FII. Como o Brasil optou por não retaliar os EUA, em busca de uma solução diplomática, a elevação das tarifas sobre importação unilateralmente pelo governo americano pode ter um efeito desinflacionário no Brasil.
“Isso porque a tarifação deve reduzir a demanda por bens brasileiros nos EUA, que podem ser comercializados internamente ao invés de exportados, elevando a oferta de produtos no mercado brasileiro e causando um efeito desinflacionário”, explica a analista. No entanto, caso o Brasil adote uma postura de retaliação, o que não é o cenário esperado, a disponibilidade de bens norte-americanos no Brasil pode diminuir, pressionando ainda mais a alta dos preços.
O cenário ainda é incerto e o tarifaço cria mais perguntas do que respostas definitivas neste momento, segundo Rafael Bellas, coordenador de produtos da InvestSmart XP. “Os próximos meses serão decisivos para entender se o choque externo resultará em retração, realocação de fluxos para o mercado interno ou até estímulo a alguns setores. Até lá, qualquer análise precisa ser lida como um exercício de cenários e hipóteses, e não como uma previsão fechada”.

Como o tarifaço pode afetar os FIIs?
Após o início da vigência do aumento das alíquotas para os produtos do mercado brasileiro, o possível efeito desinflacionário no cenário doméstico tem efeitos mistos nos Fundos Imobiliários (FIIs). Além disso, alguns segmentos podem estar mais expostos do que outros.
“Por um lado, a possível desaceleração do nível de preços tende a reduzir os rendimentos dos fundos de papel indexados à inflação, que correspondem à maioria dos FIIs de CRI disponíveis no mercado. Já para os FIIs de tijolo, embora o componente inflacionário esteja presente na correção dos contratos, o desempenho dessa classe depende mais do crescimento econômico e do fechamento da curva futura de juros”, detalha Santos.
Ainda que o aumento das tarifas possa desacelerar a atividade econômica, reduzindo o Produto Interno Bruto (PIB) projetado, a visão da analista do Clube FII é de que o impacto não será tão relevante na atividade econômica quanto no nível de preços. “E a redução do nível de preços, aliada a uma possibilidade crescente de cortes de juros nos EUA ainda em 2025 abrem espaço para cortes de juros no Brasil. E isso pode criar um ambiente favorável para os FIIs à frente”, completa a analista do Clube FII.
O cenário é de incerteza para fundos de shoppings, lajes corporativas e ativos de varejo, na visão do especialista da InvestSmart XP, que concorda que caso o excedente de produção no mercado interno leve à queda de preços de bens e insumos, com efeito deflacionário, isso pode aliviar custos para consumidores e empresas, estimulando o consumo e a ocupação desses ativos.
“Se isso se traduzir em redução do custo de vida e posterior queda nas taxas de juros, o consumo doméstico poderia ganhar tração. Nesse cenário, setores voltados ao mercado interno, como renda urbana e parte da logística, poderiam encontrar um ambiente mais favorável, mas isso dependerá de múltiplas variáveis econômicas e políticas”.
FIIs de logística demandam atenção para ocupação dos ativos
Nos FIIs de logística, ativos vinculados a alguns segmentos que ocupam galpões e centros industriais estariam mais expostos a impactos diretos e indiretos, afirma André Romano, gerente da divisão industrial e logística da JLL. A diminuição da demanda externa pode afetar investimentos, produção e, por consequência, a ocupação de ativos imobiliários.
Os segmentos Comércio & Varejo (39%), Indústria (36%) e Logística & Transporte (17%) concentrariam a maior parte da ocupação de imóveis industriais. “Embora não sejam, em sua maioria, diretamente envolvidos em exportações, podem sofrer efeitos secundários caso seus clientes ou fornecedores estejam entre os setores afetados pelas tarifas”, destaca Romano. No segmento indústria, poderiam ter exposição direta subsetores como Alimentos e Bebidas (7%), Bens de Consumo (5%), diante de restrições para produtos como carne bovina, café e etanol.
“Embora o impacto direto das tarifas se concentre em uma fração dos setores que ocupam imóveis industriais no Brasil, os efeitos podem ser amplificados por conexões indiretas dentro da cadeia produtiva. FIIs com maior exposição a galpões voltados ao agronegócio, alimentos e bens de consumo devem monitorar de perto os desdobramentos do comércio internacional, enquanto segmentos ligados à indústria leve, tecnologia e serviços continuam mais resilientes diante do cenário atual”, entende Romano.
Segmentos diretamente afetados, como alimentos, bebidas e bens de consumo, podem enfrentar diminuição na produção e no fluxo logístico, o que pressionaria a ocupação e pode impactar rendimento dos fundos com exposição concentrada nessas atividades.
“Por outro lado, setores como tecnologia, saúde, logística interna e manufatura leve, ainda pouco afetados, ganham atratividade por sua resiliência e potencial de crescimento doméstico. Um exemplo disso são as empresas Chinesas ligadas a esses setores, que estão cada vez mais ocupando imóveis industriais e logísticos no país, seja diretamente ou por via de operadores logísticos”, conclui o gerente da divisão industrial e logística da JLL.
No entanto, para os FIIs do setor logístico, ainda que o impacto negativo sobre o fluxo de exportações seja possível, este não é o único cenário, no entendimento do coordenador de produtos da InvestSmart XP, pois parte desse volume pode ser absorvido internamente, mantendo ou até criando demandas por armazenagem e transporte doméstico, ainda que em um patamar e formato diferentes do habitual.
Fiagros podem ser pressionados com tarifaço
As tarifas dos EUA podem afetar a exportação de produtos do agronegócio brasileiros, o que demanda uma atenção especial para os Fiagros, enquanto o movimento de juros também pode exercer pressão, pois é o principal indexador dos Fiagros de crédito, lembra a analista do Clube FII.
“Portanto, é possível que alguns Fiagros que tenham exposição à empresa exportadoras de bens tarifados, que possuem dos Estados Unidos como clientes relevantes da sua produção. Essas companhias podem sofrer uma redução de exportações, prejudicando o faturamento e, o que pode impactar os Fiagros através do atraso nos pagamentos dos CRAs, por exemplo”, detalha Santos.
A pressão sobre margens e preços é uma possibilidade concreta, concorda o especialista da InvestSmart XP. Por outro lado, o aumento da oferta interna pode estimular o processamento doméstico e gerar novas cadeias de valor voltadas ao mercado nacional. “A intensidade desse movimento dependerá do apetite da indústria local e do impacto nos preços internos”.
FI-Infras teriam impactos limitados
Nos FI-Infras, analistas entendem que o impacto em geral é limitado, pois, segundo Santos, dependem mais da trajetória de juros frente aos desdobramentos do tarifaço, sem impactos diretos.
Bellas, concorda, ao recordar que o país possui um déficit histórico de infraestrutura e uma demanda interna robusta por energia, transporte e saneamento, fatores que tendem a sustentar investimentos independentemente, das oscilações no comércio exterior. “Ainda assim, não se pode descartar que um ambiente macroeconômico mais volátil, com efeitos sobre câmbio, juros e confiança, influencie o ritmo e o custo de novos projetos”.
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